quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Algumas ideias (sintéticas) sobre educação...



Sendo frontalmente contra a municipalização das escolas, e da educação, por razões politicas, económicas e sociais, apresento, aqui, algumas ideias, de forma muito sintética, sobre o estado actual da educação.

1.    Desburocratização/simplificação de processos
Atingimos ao zénite no que corresponde à burocratização da educação, dos seus processos e da sua avaliação. Tal situação deve-se, no meu entender, a dois factores de razões:



a)    Desconfiança generalizada das chefias acerca das formas e métodos de trabalho dos docentes e não docentes. Tal desconfiança deve-se a processos avaliativos não formativos mas, normalmente, punitivos e sancionatórios (para todos os patamares do sistema educativo). Desconfiamos uns dos outros e atribuímos responsabilidades pelo insucesso (sempre) “aos outros”, ou seja, o cooperativismo na sua forma mais pura e dura.

Assim, à avaliação de docentes e não docentes passando pela avaliação dos processos educativos e da estruturação do ensino não correspondem medidas concretas de alteração dos mesmos (correcção de processos, etc…) simplesmente, como é norma neste nosso país, há uma constatação que serve para fins políticos, entenda-se a mobilidade, o encerramento de escolas e/ou a não atribuição de mais verbas.
Assim, a pedagógica e avaliativa de processos é vital…

b)    As verbas são suficientes?
A metodologia de se derramar dinheiro sobre os problemas, como se uma dor de cabeça passasse por via económica e /ou financeira, foi um maná que acabou. Penso, sinceramente, que deveria ter havido maior cuidado com o controle de gastos e de atribuição (não politizada) de verbas para a educação.
As direções financeiras deveriam ter sido (ou ser) mais responsabilizadas pelos gastos. Teria sido mais lógico dar autonomia às direcções para organizarem os gastos dos seus agrupamentos, mesmo retirando verbas, em vez de parcelarem e espartilharem as verbas atribuídas. Estou certo que cada direcção seria mais capaz de gerir os seus orçamentos autonomamente e de acordo com os interesses do seu projecto educativo e da região onde se inserem sabendo, atempadamente do “bolo financeiro a gerir”, e tendo essas verbas cativas desde logo. Também, acredito que tendo orçamentos bianuais ou que acompanhassem um ano lectivo (logo não correspondendo ao ano civil) seria facilitador de uma boa gestão.





Assim, a autonomia financeira é vital…
c)Haverá, realmente, projectos educativos significativos?
Pelas ideias já expostas não acredito na retórica de que cada encarregado de educação conseguirá, num futuro dourado e próximo, escolher a escola do seu educando baseando-se no projecto educativo proposto por cada unidade de ensino. Sem autonomia não há a real possibilidade de se construir uma escola diferente das outras. Diferente na sua qualidade e nas suas ofertas de qualidade…há uns laivos de inovação (normalmente importada e/ou copiada de modelos já propostos, muitas ensaiados mas nunca avaliados) que esbarra na conjuntura económica do seu espaço - tempo.

Aqui a municipalização da educação terá um papel extremamente negativo pois perpetuará teorias, concepções educativas baseadas no economicismo do momento. O tal espaço- tempo que Einstein relativizava mas que, nós portugueses, conhecedores das nossas características, sabemos virem a ser reduzidas a interesses politico partidários, pessoais e de lóbis…(entre outros).
Assim, a autonomia é vital…não pode ser realizada na municipalização.

d)Agora, sugestões concretas para duas situações reais/atuais…
Como acredito da politica dos pequenos passos que dão uma caminhada, faço as seguintes sugestões…

- Para uma escola democrática
Revogue-se Decreto-lei n.º 75/2008, de 22 de abril no que concerne há eleição dos órgãos de gestão (artigo 23º). A eleição deverá voltar a ser entregue à comunidade educativa de molde a que a cada elemento dessa comunidade possa votar. Um princípio democrático de uma pessoa um voto é fundamental.

-Antes de enviar um docente para a mobilidade (desemprego a médio prazo)
Há cargos, lugares a preencher, nas escolas ou nas estruturas sociais de uma comunidade (entenda-se unidade autárquica). Esses lugares podem (devem) ser preenchidos por docentes sem turma atribuída devido a redução de alunos ou por outros motivos (saúde, por exemplo). Eis alguns exemplos:
a)    Na escola
- redução de número de alunos por turma, para um número que permita um trabalho de qualidade. Logo haverá mais turmas…;
- atribuição de maior número de co - docência para turmas problemáticas;
- aulas de apoio a alunos com dificuldades de aprendizagem (em grupo pequeno ou individuais);
- trabalho (correto e concreto) de tutorias;
- apoio a alunos com NEE;
- apoio aos professores bibliotecários;
- apoio nos serviços administrativos;
- aulas de substituição;
- assessorias da direcção.



b)    Na comunidade
- trabalho em bibliotecas locais;
- apoio no secretariado da autarquia, na policia local, centros de saúde, hospitais, outros…
E, muito mais…pode cada um pensar e sugerir. Todas as ideias são importantes no aproveitar de experiência cumulada e de saberes que podem ser importantes para a comunidade e que a comunidade (em tempos) ajudou a pagar.
Não devemos desperdiçar…

Rui Manuel Torrado Valente
S. João do Estoril, 4-02-2015


domingo, 1 de fevereiro de 2015

O humor mata ou Je suis Charlie ou…sei lá quem sou…

“…não desenho para aborrecer as pessoas, mas sim para as divertir, para chamar a atenção delas para aquilo que vale a pena e que nem sempre se vê”   Vincent Van Gogh


Quando olho em redor vejo cada vez mais pessoas alheadas, de olhar fixo, esgazeado de mau humor. Ou, pior. Sem humor.
O humor é corrosivo, mata no sentido literal do termo, como vimos recentemente.
O homem aceita os insultos, aceita rebaixar-se em determinadas situações mas quase nunca aceita o ridículo, quase nunca aceita ser posto em causa e rir-se de si mesmo ou de uma situação em que participe.
Rir-se de si próprio, de uma situação que protagonizou, é muito difícil numa sociedade baseada na imagem. A imagem que damos, ou pensamos dar, e a imagem que os outros têm de nós baseia-se nisso mesmo, na filtragem que cada cérebro, cada um de nós, constrói do outro.
Dizemos que “o ridículo mata” mas se lhe juntarmos “o que não mata engorda” ficamos a saber a verdadeira causa da obesidade.
Engordamos o nosso ego com quilos de egoísmo e de hipocrisias que, ridiculamente, são politicamente corretas…como o foi ver países onde não há verdadeira liberdade de expressão serem representados na marcha por essa liberdade numa Paris em pose transcendental.
Isto transcende a minha compreensão…
Brincamos, por vezes, com pessoas sem sentido de humor. Isso, para essas pessoas, é terrível.
É terrível ser-se literal uma vida inteira pois embora seja bom termos princípios e valores, que nos regem e dão sentido à vida, haverá sempre momentos em que é necessário perspectivar as pequenas coisas da nossa pequena e curta vidinha.
Por muito que sejamos gordos, o nosso umbigo não é o centro do mundo, quiçá do universo. Já Galileu o provou…e, de que maneira.
O Humor, só o humor, pode dar sentido às nossas vidas. Assim, dou vivas a todos os que me fazem sorrir…vivam os comediantes, vivam os humoristas!
 Como não podemos matar esse modo de pensar ser e estar, só matando o indivíduo que o alberga, e assim conseguimos atingir o ridículo máximo que é o lado negro do humor (meu caro Darth Vader, onde estás quando és preciso?) --  a falta total de capacidade de sorrir perante uma ideia ou um facto.
Neste caso, de humor negro, o ridículo mata.

Rui Manuel Torrado Valente
S. João do Estoril, Janeiro de 2015